Por Larry Romanoff

O governo dos Estados Unidos financiou e realizou inúmeras experiências psicológicas em seres humanos sem eles o saberem, especialmente durante a Guerra Fria, talvez parcialmente para ajudar a desenvolver técnicas mais eficientes de tortura e interrogatório para os militares dos EUA e para a CIA, mas a extensão, o alcance e a duração quase inacreditáveis dessas atividades ultrapassaram muito as possíveis aplicações em interrogatórios e parecem ter sido realizadas a partir de uma desumanidade fundamental e monstruosa. Ler  apenas os resumos, mesmo sem mencionar os detalhes, é por si só, quase traumatizante.

Retiring director of the CIA Allen Dulles (centre) with US President John F Kennedy and Dulles’ CIA replacement John A. McCone in Washington, DC. in early 1960s. Picture: AP
Director aposentado da CIA, Allen Dulles (no centro) com o Presidente dos EUA, John F Kennedy, e o substituto da DIA na CIA, John A. McCone, em Washington, DC. no início dos anos 1960.

Em estudos iniciados no final da década de 1940 e no início da década de 1950, o Exército dos EUA começou a identificar e a testar soros da verdade, como mescalina e escopolamina, em seres humanos, que invocaram ser de utilidade durante os interrogatórios a espiões soviéticos. Esses programas acabaram por se expandir num projecto de amplo campo de acção e enorme ambição, centralizado sob a competência da CIA, no que viria a ser designado como Projecto MK-ULTRA, uma importante colecção de projectos de interrogatório e controlo da mente. Inspirada inicialmente pelas ilusões de um programa de lavagem cerebral, a CIA iniciou milhares de experiências usando indivíduos americanos e estrangeiros, muitas vezes sem o seu conhecimento ou contra a sua vontade, destruindo inúmeras dezenas de milhares de vidas e causando muitas mortes e suicídios. 

Financiada, em parte, pelas Fundações Rockefeller e Ford e operada conjuntamente pela CIA, pelo FBI e pelas divisões de inteligência (serviços secretos) de todos os grupos militares, essa pesquisa da CIA, que durou décadas, constituiu uma imensa colecção de algumas das atrocidades mais cruéis e desagradáveis ​​que se possam imaginar, num esforço determinado em desenvolver técnicas confiáveis ​​de controlo da mente humana.

Pelo menos 200 notáveis investigadores científicos privados fizeram parte neste programa, assim como muitos milhares de médicos, psiquiatras, psicólogos e outros semelhantes. Muitas destas instituições e indivíduos receberam o seu financiamento através das chamadas “bolsas” do que eram, nitidamente, empresas de fachada da CIA.

O MK-ULTRA foi algo que englobou um grande número de atividades clandestinas que faziam parte da pesquisa e do desenvolvimento da CIA, sobre Guerra Psicológica, consistindo em cerca de 150 projectos e subprojectos, muitos deles muito grandes por si só, com pesquisa e experimentação humana a ocorrer em mais de 80 instituições que incluíam cerca de 50 das faculdades e universidades mais conhecidas dos Estados Unidos, 15 ou 20 grandes fundações de pesquisa, incluindo a Fundação Rockefeller, dezenas de grandes hospitais, muitas prisões e instituições mentais e muitas empresas químicas e farmacêuticas. Pelo menos, 200 pesquisadores científicos privados e bem conhecidos, fizeram parte deste programa, assim como muitos milhares de médicos, psiquiatras, psicólogos e outros semelhantes. Muitas dessas instituições e indivíduos receberam o seu financiamento através dos chamados “subsídios” do que eram, claramente, empresas de fachada da CIA.

Em 1994, uma subcomissão do Congresso revelou que cerca de 500.000 americanos, sem terem qualquer conhecimento destes factos, foram ameaçados, danificados ou destruídos pelos testes secretos da CIA e dos militares, entre 1940 e 1974. Dada a destruição deliberada de todos os registos, a verdade completa sobre as vítimas do MK-ULTRA nunca será conhecida, como também não será sabido o número de mortos. Como o Inspector Geral do Exército dos EUA declarou posteriormente num relatório a uma comissão do Senado: “Nas universidades, hospitais e instituições de pesquisa, um número desconhecido de testes e experiências químicas … foi realizado em adultos saudáveis, nos que tinham doenças mentais e em indivíduos retidos na prisão”. De acordo com um relatório do governo,” em 149 experiências separadas de controlo da mente, sobre milhares de pessoas, os pesquisadores da CIA usaram a hipnose, tratamentos com eletrochoques, LSD, marijuana, morfina, benzedrina, mescalina, seconal, atropina e outras drogas”. Os indivíduos que foram sujeitos aos testes eram geralmente pessoas que não podiam objectar facilmente – prisioneiros, pacientes mentais e membros de grupos minoritários – mas a agência também realizou muitas experiências em civis normais e saudáveis, ​​sem o seu conhecimento ou sem o seu consentimento.

Over a period of twenty years as a scientist with the agency, Sidney Gottlieb ran the largest systematic search for mind control techniques in history. He headed up the agency's secret MK-ULTRA program, which was charged with developing a mind control drug that could be weaponized against enemies

Dr. Sidney Gottlieb

O projeto estava sob o comando direto de um Dr. Sidney Gottlieb e recebeu milhões de dólares não revelados mas quase ilimitados, destinados a centenas de experiências em seres humanos, em centenas de locais nos Estados Unidos, Canadá e Europa, tendo o orçamento eventual para este programa, ao que tudo indica, ultrapassado 1 bilião de dólares por ano. O mal que se encontra em alguns destes documentos MK-ULTRA é quase palpável, um desses documentos de 1955, a declarar abertamente uma procura de “substâncias que irão provocar danos cerebrais (temporários ou) permanentes, bem como a perda de memória”. Parte da intenção era desenvolver “técnicas que iriam esmagar a psique humana ao ponto de admitir qualquer coisa”. Num memorando do governo americano de 1952, um Diretor de programa perguntou: “Podemos conseguir o controlo de um indivíduo ao ponto de ele fazer o que lhe ordenamos contra a sua vontade e até contra leis fundamentais da natureza, como a auto preservação? Também enumerou a grande variedade de abusos horrendos aos quais as vítimas estariam sujeitas. Estas pessoas não eram relutantes quanto às suas intenções.

Os mecanismos incluíam uma programação sexual primordial para as mulheres na tentativa de eliminar as convicções morais aprendidas e estimular o instinto sexual primitivo desprovido de inibições, para criar uma espécie de máquina sexual – a prostituta fundamental para a espionagem diplomática. Vários pesquisadores afirmaram que o apetite sexual dessas mulheres foi desenvolvido em jovens, nos seus anos de formação, através de incesto constante com um funcionário do governo que havia sido deliberadamente desenvolvido como figura paterna dessas jovens. Em parte, estes programas envolviam condicionar a mente humana através da tortura, com uma parte deste programa destinada a treinar agentes especiais, para agirem como terroristas destemidos sem instintos de auto-preservação e que se iriam suicidar de bom grado, se fossem apanhados. Até fizeram experiências através de implantes electrónicos, sons inaudíveis, mensagens embutidas na mente subconsciente, drogas para alterar a mente e muito mais. Uma parte dessa extensa operação envolveu uma tentativa de criar um programa de assassinos, torná-los capazes de raptar indivíduos de outros países, submetê-los a hipnose e a outras técnicas e depois devolvê-los aos seus países de origem, a fim de assassinarem as  suas chefias.

Frank Olson Project

Outra parte do projecto do controlo mental da CIA tinha como objectivo encontrar um “soro da verdade” para usar em espiões. Foi administrado aos indivíduos sujeitos ao teste LSD e outras drogas, muitas vezes sem o seu conhecimento ou consentimento, e alguns foram torturados. Muitas pessoas morreram – ou foram mortas – como resultado destas experiências e um número desconhecido de funcionários do governo, a trabalhar nestes projectos, foi assassinado com receio de que contassem o que tinham visto, talvez o mais conhecido seja Frank Olson, cuja morte descrevi noutro lugar. O projecto foi firmemente negado tanto pelo governo como pela CIA, mas foi, finalmente, exposto após as investigações da Comissão Rockefeller. Quando esta informação se tornou conhecida, o governo dos EUA pagou muitos milhões de dólares para resolver as centenas de  reclamações e processos judiciais que resultaram. Existem muitas provas de que estes programas nunca foram encerrados.

Dr. Harold Wolff

Foram orientados pela Faculdade de Medicina da Universidade de Cornell, muitos estudos iniciais de interrogatórios sob a direcção de um Dr. Harold Wolff , que solicitou à CIA qualquer informação sobre “ameaças, coerção, prisão, privação, humilhação, tortura, lavagem cerebral”, “psiquiatria negra” e hipnose, ou qualquer combinação destes, com ou sem agentes químicos “. Segundo Wolff, a equipa de pesquisa iria então: “… reunir, recolher, analisar e assimilar estas informações e irá realizar investigações experimentais destinadas a desenvolver novas técnicas de uso de inteligência ofensiva/defensiva … Serão testadas, de maneira semelhante, drogas secretas potencialmente úteis [e diversas procedimentos que danifiquem o cérebro] para verificar o efeito fundamental sobre a função cerebral humana e sobre o humor do sujeito … “. Ele apontou ainda mais e de maneira arrepiante: “Quando qualquer um dos estudos envolver possíveis danos ao indivíduo, esperamos que a Agência disponibilize indivíduos e um local adequado para a realização das experiências necessárias”.

Entre as múltiplas universidades e instituições de destaque a participar nesta farsa, estava a Universidade de Tulane, onde tanto a CIA como as forças armadas americanastinham financiado em larga escala o que aparentava ser programas de experiências de controlo da mente baseados em traumas aplicados em crianças. Em 1955, o Exército dos EUA relatou estudos nos quais os pesquisadores implantaram eléctrodos no cérebro de pacientes mentais para avaliar os efeitos do LSD e de uma série de outras drogas não testadas. Foi em Tulane que foram realizados alguns dos primeiros testes de privação sensorial, isolando pessoas nessas câmaras onde teriam alucinações impotentes durante uma semana de cada vez, enquanto eram injectadas com drogas e bombardeadas com mensagens gravadas, para ver se poderiam ser “convertidas a novas crenças”. Todos estes indivíduos eram vítimas indefesas que não tinham ideia do que lhes estava a acontecer. Há uma longa lista de outras universidades e hospitais americanos famosos que participaram numa destruição humana semelhante e todos eles ‘limparam’ cuidadosamente os seus registos.

Midnight Climax

O Clímax da Meia Noite

Outra operação da CIA designada como ‘Midnight Climax’ consistia numa rede de locais da CIA, nos quais as prostitutas que faziam parte da folha de pagamento da CIA, iriam atrair clientes onde eram clandestinamente envolvidos por uma ampla gama de substâncias, incluindo LSD, e monitorados por trás de vidros de visão unidireccional. Foram desenvolvidas neste teatro de operações, várias técnicas operacionais significativas, incluindo uma extensa pesquisa sobre chantagem sexual, tecnologia de vigilância e o uso possível de drogas que alteram a mente em operações de campo. Na década de 1970, como sendo outra parte do seu programa de controlo mental, a CIA conspirou com a Eli Lilly and Company para produzir cem milhões de doses da droga ilegal LSD, quantidade suficiente para enviar quase todo mundo nos Estados Unidos a fazer uma viagem. Nenhuma explicação foi dada sobre o que a CIA fez com estes cem milhões de doses de ácido, mas, como grande parte desta actividade foi exportada, rever os acontecimentos políticos internacionais durante esse período pode trazer à mente possibilidades interessantes.

Unit 731

Como já acima observado, o projecto MK-ULTRA e os seus irmãos tiveram origem na Operação Paperclip, na qual mais de 10.000 japoneses e alguns cientistas alemães de todas as faixas foram transportados clandestinamente para os EUA após a Segunda Guerra Mundial, para fornecer ao governo informações sobre técnicas de tortura e interrogatório. Não está muito divulgado, mas, como parte da Operação Paperclip, a CIA recrutou para o MK-ULTRA, Shiro Ishii, o responsável pela Unidade 731 do Japão que chefiou algumas das mais horrendas atrocidades humanas da História, incluindo a vivissecção (dissecção executada num animal vivo com fins experimentais) ao vivo em crianças. Ao mesmo tempo, também importou pelo menos dez mil funcionários da Unidade 731, alojou-os em bases militares dos EUA e deu-lhes total imunidade nos processos judiciais pelos seus crimes de guerra e crimes contra a Humanidade. Por este motivo é que nenhum japonês foi julgado pelos seus crimes: estavam todos na América, a contribuir com as suas competências para o MK-ULTRA. A CIA também trouxe do estrangeiro alguns alemães que tinham realizado experiências com seres humanos. Também não é amplamente sabido, mas todo esse projecto nasceu não nos EUA, mas no Instituto Tavistock de Relações Humanas, no Reino Unido, um instituto com um passado excepcionalmente a sangue-frio. Voltarei a Tavistock nos próximos capítulos.

A liderança da CIA estava preocupada com a descoberta do seu comportamento contrário à ética e ilegal, como evidenciado no Relatório Geral dos Inspectores de 1957, que afirmava: “Devem ser tomadas precauções não apenas para proteger as operações da exposição às forças inimigas, mas também para ocultar essas actividades dos americanos ao público, em geral. A noção de que a agência está a realizar actividades anti-éticas e ilícitas teria sérias repercussões nos círculos político e diplomático”.

Ex CIA official Richard Helms (left), shown with President Richard Nixon in 1973, helped launch the program in the 1950s.
O antigo funcionário da CIA Richard Helms (à esquerda), com o Presidente Richard Nixon, em 1973, ajudou a lançar o programa na década de 1950.

As actividades MK-ULTRA da CIA continuaram até à década de 1970, quando o Director da CIA, Richard Helms, temendo ser exposto ao público, ordenou que o projecto fosse encerrado e todos os arquivos destruídos. No entanto, um erro administrativo tinha enviado muitos documentos para o departamento errado; portanto, quando os funcionários da CIA estavam a destruir os arquivos, alguns deles permaneceram e foram divulgados mais tarde perante uma solicitação da Lei de Liberdade de Informação (FOIA) do jornalista e investigador John Marks. No entanto, como quase todos os registos foram destruídos, os números e as identidades das vítimas nunca serão conhecidos.

Instituto de Pesquisa Stanford

O Instituto de Pesquisa Stanford (SRI) descreve a sua missão como sendo “criar soluções que mudam o mundo para tornar as pessoas mais seguras, saudáveis e produtivas”. A Wikipedia diz-nos que os patronos da Universidade de Stanford estabeleceram o SRI, em 1946, como sendo “um centro de inovação para apoiar o desenvolvimento económico da região”. Não tenho provas de que o SRI tenha tornado alguém mais seguro ou mais produtivo e, qualquer que seja o objectivo original desta instituição, não parecia estar muito no topo da lista apoiar o desenvolvimento económico da região. De acordo com a minha pesquisa, existem poucas instituições na América que tiveram as suas histórias mais higienizadas e refeitas do que o ISR. Claro que todas as referências à participação no MK-ULTRA da CIA e noutros projectos desumanos desapareceram da narrativa. Em Agosto de 1977, o Washington Post divulgou alguns destes projectos; provavelmente, havia muito mais.

Uma das actividades anteriores do SRI envolvia contratos adjudicados pela CIA e pela Marinha dos EUA para pesquisar e desenvolver o controlo mental a longa distância usando ondas de rádio. A CIA já tinha financiado projectos MK-ULTRA na Honeywell, a fim de obter “um método para penetrar na mente de um ser humano e controlar as suas ondas cerebrais a longa distância”. Na década de 1960, o então Director da CIA, Richard Helms, estava empolgado com o que foi chamado de “comunicação biológica por rádio”, e o Washington Post publicou provas concretas de que o controlo electrónico da mente era um dos principais objectos de estudo da SRI na época. A teoria era de que as ondas electromagnéticas de frequência extremamente baixa do cérebro podiam ser usadas para controlar indivíduos, às vezes chamados de “empáticos”, muitos dos quais (inexplicavelmente) foram extraídos da Igreja de Scientology de  L. Ron Hubbard

Fascists in White Coats: The CIA's Dr. Louis Jolyon West & the ...

Dr. Louis Jolyon West

De acordo com os relatórios, a CIA estava tão entusiasmada com as possibilidades destas experiências no SRI, que foram desviados muitos milhões de dólares para estes projectos, aumentados com testes de parapsicologia realizados simultaneamente em Fort Meade, pela NSA. A supervisão médica para essa enorme variedade de experiências estava sob o controle de outro pervertido da CIA,  Dr. Louis Jolyon West, então Professor de Psiquiatria da UCLA, um dos mais notáveis especialistas da CIA, sobre controlo mental no país. É difícil evitar a conclusão de que todas essas pessoas eram loucas, já que a CIA, a NSA e até o INSCOM e a inteligência militar/serviços secretos militares (e, claro, a Church of Scientology/Igreja de Scientology) cooperaram com o SRI em pesquisas que incluíam cartas de tarô, canalização de espíritos, comungando com demónios e muito mais.

Mas, de acordo com o próprio SRI, o trabalho do Dr. West incluía não só ondas de rádio e parapsicologia, mas a criação de personalidades dissociativas “que permitiam que os indivíduos sujeitos ao condicionamento mental se adaptassem ao trauma”. West referiu-se a essas pessoas como crianças trocadas, que produziam estados mentais alternativos alucinantes, mas na verdade esquizofrénicos (personalidades múltiplas induzidas), para permitir que eles lidassem com o que foi designado como “stress ambiental prolongado”, isto é, injecções forçadas de drogas, abuso físico, mental e sexual e programação psíquica, utilizando, geralmente, grandes doses de LSD, o produto químico preferido de Gottlieb. Existe documentação adequada de que muitas pessoas que foram submetidas a esta “pesquisa” patrocinada pela CIA, desenvolveram várias personalidades, muitas das quais foram induzidas à força desde tenra idade. Existem histórias documentadas de alguns sobreviventes que falam de abusos enormes de todos os tipos, que lhes foram infligidos a partir dos quatro ou cinco anos de idade e de ter que lidar com o terror do que parecia ser muitas pessoas diferentes a viver dentro das suas mentes. O Dr. Jolyon West tornou-se uma espécie de especialista em pesquisa nesses estados dissociativos e grande parte de seu trabalho no programa MK-ULTRA da CIA concentrou-se na sua criação. Os registos revelam êxito na criação de amnésia, memórias falsas, personalidades alteradas, identidades falsas e muito mais, todas horripilantes e trágicas para os indivíduos envolvidos, todas da pesquisa de West com métodos para “interromper as funções que, normalmente, integram a personalidade” e tornar as pessoas totalmente sujeitas a um controlo remoto.

MEMORY'S GHOST

Philip J. Hilts

Quando West morreu em 1999, o New York Times, novamente fiel à sua forma, publicou um delicioso obituário escrito por Philip J. Hilts, que descreveu West como “um líder carismático em psiquiatria”, um homem cujo trabalho ” se centrava em pessoas que foram levadas aos limites da experiência humana, “como prisioneiros de guerra com lavagem cerebral”, vítimas de raptos e crianças abusadas”, sem se preocupar em mencionar que o suposto foco de West nessas pessoas não significava que ele estivesse a cuidar delas, mas que ele criou essas condições. West era, de facto, o homem que fazia a lavagem cerebral e o abuso de crianças, e não estava a cuidar dos seus males. Hilts disse-nos que West testemunhou outrora uma execução e permaneceu, para sempre, contra a pena de morte para prisioneiros. Parece lamentável que ele não seja contra a pena de morte das suas próprias vítimas. O New York Times diz-nos que West era “uma figura colorida, uma pessoa viva”. Que bom. Todos os obituários tendem a ser lisonjeiros quando são escritos por familiares ou amigos, embora as necrologias destinadas somente a elogios sejam escritas pela comunicação mediática principal que tem um efeito poderoso na história no branqueamento, no arejo e na reescrita – o que certamente teria sido a intenção do New York Times. Nada mais poderia explicar essa descrição brilhante.

Devo discordar por um momento para discutir uma doença geralmente referida como Transtorno de Personalidade Múltipla ou Transtorno Dissociativo da Personalidade, uma condição na qual uma pessoa desenvolve várias ‘personas’ ou personalidades distintas na sua mente, geralmente totalmente afastadas, umas das outras e a maioria, frequentemente, criada como um mecanismo de defesa para proteger uma mente vulnerável à destruição devido aos horrores que ela sofreu. Em termos simples, uma mente torturada que testemunha e experimenta horrores indescritíveis, eventos terríveis demais para conviver, criará uma personalidade adicional na qual essa mente viverá, afastando a outra da consciência. São os próprios horrores, que consistem em todo tipo de abuso físico e sexual, tortura, tratamento com drogas e electrochoques, talvez testemunhando as mortes ou assassinatos de outras crianças, que forçam a criação destas múltiplas personalidades, aparentemente tão fácil de realizar quando feito em crianças de tenra idade.

A amnésia entre estas múltiplas personalidades é total: ao funcionar numa personalidade, o indivíduo (neste caso, a criança) não tem conhecimento da existência das outras e funciona como uma pessoa totalmente diferente. As paredes entre estas várias personalidades são construídas em aço. O objectivo de criar estas múltiplas personalidades é que o “médico” possa controlá-las, evocar qualquer uma delas a qualquer momento e, em sentido real, “desenhar” cada uma delas, criando para ela falsas lembranças, histórias, atitudes, padrões de comportamento, lealdades, moralidades, tudo e, especialmente, a obediência. Para compreender este processo, o leitor terá de pensar, vagamente, numa pessoa hipnotizada, a encenar e a seguir à letra várias sugestões pós-hipnóticas e, mais tarde, com amnésia total. Muitos psiquiatras alegaram que, na prática, este objectivo não é muito difícil de ser conseguido; a teoria e os métodos foram bem confirmados.

Na realidade, um assunto que percorreu todas as facetas do programa MK-ULTRA de Gottlieb, e que foi declarado, claramente, num documento MK-ULTRA de 1955, foi a pesquisa detalhada e minuciosa de “substâncias que produzam amnésia total e perda de memória [mesmo à custa de] dano cerebral permanente “em indivíduos que foram condicionados por psiquiatras da CIA, a amnésia incluindo não só as acções executadas pelas suas personalidades alternativas, mas também o facto de terem sido programadas.

(Continua)

Larry Romanoff é consultor de administração e empresário aposentado. Ocupou cargos executivos de responsabilidade em empresas de consultoria internacionais e possuía um negócio internacional de importação e exportação. É Professor visitante da Universidade Fudan de Shangai, apresentando estudos de casos de assuntos internacionais para as classes adiantadas de MBA. Romanoff reside em Shanghai e está, atualmente, escrevendo uma série de dez livros, sobre as relações da China com o Ocidente. Pode ser contactado por email: 2186604556@qq.com

Tradução: Maria Luísa de Vasconcellos (luisavasconcellos2012@gmail.com)
Fonte: Moon of Shanghai Blog

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